Apertou a carta no peito e se esforçou para recordar dos dias que havia passado. Abria poucas vezes a caixa de recordações guardada em cima do armário. Lá, encontrava vestígios de uma vida boa e feliz, e de momentos complicados também. Mais do que recordações, eram as pistas que guardava para comprovar que já teve um passado. Talvez para dar força e perceber que as coisas passam, e que o futuro de amanhã é o presente de ontem e o passado vira objeto guardado. Inclusive os sentimentos.

Sentimento é traiçoeiro. Guardava os objetos naquela simples caixa de papelão, que também representava uma recordação dada por amigos em data de aniversário, com a intenção de trazer à tona os sentimentos quando o objeto estivesse em mãos. Mas, em alguns casos, não vinha. Tornaram-se simples objetos. Desde a carta com ‘te amos’ exagerados e seguidos um atrás do outro do primeiro relacionamento; correios elegantes de festa junina do colégio; pedaços que sobraram de pulseiras de festas badaladas; objetos, apenas.

Havia então se desprendido das recordações que não valeram a pena. Ou valeram, mas talvez por um momento. Continuavam na história, mas não mais no coração. E a carta apertada ainda ao peito fazia o corpo se esforçar para trazer de volta as coisas que havia sentido com tanto carinho exposto ali. Não vinha. Era mais do que comprovado que as pessoas vem, e vão. Quem não é visto não é lembrado, dizem. Mesmo que as lembranças estejam guardadas.

E como quem recolhe as migalhas deixadas pelo caminho igual João e Maria, recordava de uns, não se lembrava de outros. As pessoas são esquecidas, é verdade. Em um mundo onde o exposto virou rotina em redes sociais, ainda tem-se o dom de fazer sumir em meio a tantas formas de se mostrar. Falta interesse, e mais do que faltar interesse, não há vontade em alimentar o coração das recordações vividas.

Sentimento é recordação. Amor puxa carinho, que atrai atenção, que pede por compreensão, gera briga, e necessita de mais amor. É ciclo. Uns alimentam, outros deixam a fome chegar até o coração secar de vez. E diante dos objetos que representavam o quebra-cabeça de seu passado, guardou todos, mesmo as peças que já não faziam mais parte do jogo. Outras viriam, mais recordações. É a vida, reconhecendo que os momentos tem dia pra vir e ir. E se muitos se vão, a culpa é “nossa” por não fazermos valer nossa vivência. Muitos morrem mesmo enquanto ainda estão vivos. Tudo passa, mesmo que haja lembranças. Basta querer deixar de existir.

E uma simples carta apertada ao peito o fez perceber que não basta só virar as páginas. Às vezes a vida se encarrega de trocar os livros.