Uma a uma, recolhem a comida para a próxima estação. Em fila, mantém a organização para que todo o trabalho não seja em vão e que a agilidade seja a companhia principal da competência. E que com as duas se consiga um resultado final satisfatório e se descubra que agilidade e competência também são sinôminos de calma e de repartir. Sempre achei que formigas tinham essa união umas com as outras. Eu disse, ‘tinham’…

Hoje, me deparei com uma cena um tanto quanto inusitada durante o jantar. Uma formiga brigando com a outra, roubando o pedaço de algum resto qualquer na mesa da cozinha, que a essa altura já havia virado estoque de colheita de formigas. Quem diria. E eu que sempre achei que formigas eram companheiras e que dividir era somar, no caso delas. Não só no delas, aprendi que no meu caso também. Temos o costume de nos acharmos racionais, quando são os animais irracionais que mais pensam da maneira correta. A diferença é que só enxerga dessa forma quem está disposto a aprender com eles. E assim como aprendi lá no início que dividir é somar, hoje me foi ensinado que conviver também é se envolver. E se envolver, com o tempo, gera descontentamentos.

Não sei ao certo o motivo da briga, até porque não falo formiguês. Mas na observação de apenas cinco minutos de um desentendimento por um pedaço de açúcar, foi possível avaliar os próprios conceitos. A questão aqui é que todo formigueiro, um dia pode coçar a si próprio. A construção demora, a união fortalece, a divisão acrescenta, até que o egocentrismo somado à cegueira do ‘eu posso mais’ toma conta da própria personalidade e altera até os corações mais silenciosos. E toda aquela coceira de querer dividir o silêncio um do outro na proposta de se fazer ouvir? Foi-se embora, aos poucos, com pequenos golpes diários e, em segundos, com uma frase qualquer e banal, em frente às testemunhas que nem sabiam ao certo que estavam compartilhando de um fim e estavam sendo o tribunal.

O silêncio virou resposta. Não se tinha mais vontade de escutar, e sim de retrucar. De um lado, o silêncio insistia, enquanto do outro, o golpe era certeiro. Acreditava-se na dependência. Era a palavra do momento. E mais do que depender, era se despir da boa ação para retribuir com mal olhado e vozes de desprezo. O trabalho, antes de formigueiro baseado no ato de dividir para conseguir bons resultados, aos poucos virou pó. E as formigas, antes tão unidas e preocupadas em levarem juntas o grão de açúcar, agora haviam colocado um grão amargo como barreira em um momento que não se sabe ao certo quando foi.

Formigas ou humanos, a verdade é que todo formigueiro um dia pode vir a desmoronar. E para isso, é necessário aprender a rir em meio ao choro. Tem sido tendência. É preciso. E já diria Cazuza: “Pra que buscar o paraíso, se até o poeta fecha o livro?” O jeito é aprender a viver e conviver na própria bagunça. O grão de açúcar existe pra todos, mas só se torna amargo pra quem deixar. Pode vir o que vier, pode duvidar do que quiser. O certo é abraçar aqueles que querem te ajudar a transformar açúcar em ouro, por mais difícil que isso seja e mesmo que ainda não haja uma comprovação que o pote de ouro existe no fim do arco-íris.

Poetas ou duentes, é sempre bom acreditar em algo e em pessoas que façam os olhos brilharem. E se o olho não brilha mais, é preciso se afastar para não deixar a nossa própria visão perder a cor. O sorriso continuará vivendo pra mim, e que o enxergue quem quiser.

E que os próximos abraços sejam de olhos bem abertos, porque até o mais apertado dos abraços um dia pode sufocar. E o pior: ele nem te avisa.