Janeiro. Ele sempre ficava mais introspectivo nessa época. Talvez por ser início de ano e por ainda restarem vestígios da sensação de ‘vou mudar tudo na minha vida agora’ que surge em dia de Ano Novo. Como se a cor que fosse usar no momento da virada fosse resumir todo o ano que ainda tinha pela frente. E em janeiro era sempre assim. Começava na cor branca, que era manchada por outra cor conforme os dias do ano iam passando. Creio que seja assim no ano de cada um, não? Pois no dele não era diferente.

Havia começado com o pé direito, como o dialeto popular costumava dizer.  As chuvas eram constantes, mas havia aprendido fazer nascer o Sol no instante em que os olhos despertavam para mais um dia. Como se levantasse diariamente com a decisão de ser feliz. Afinal, naquela época não tinha muito dessa coisa de adulto de ‘tenho-que-buscar-ser-alguém-na-vida’. Era só acordar e viver. Ao voltar para casa, as contas estariam pagas, o alimento na mesa e a gata, peluda e sempre com calor, no pé da cama miando por mais um potinho de leite.

Assim como o tempo inconstante, sua maior preocupação era: a incerteza se levava o guarda-chuva embaixo do braço ou um guarda-Sol para, caso surgisse um momento de loucura, fugisse da escola para se afogar no mar de gente que cobria o Litoral e disputava um lugar na areia em época de verão. Dificilmente escolheria pela última opção, já que fugia do suor para evitar as espinhas que se instalavam diariamente em seu rosto, antes de bebê, e que hoje davam sinais de uma adolêscencia pedindo para nascer.

Tinha 12 anos. Sim, não estranhe. Afinal, dúvido que você não se achava no auge da sua adolescência quando tinha 12 anos. É normal, pode confessar que ninguém se sentirá constrangido por aqui. Pelo menos eu, que já senti o mesmo. Mas isso não vem ao caso.

Como dizia, tinha 12 anos, e assim como todo garoto nessa idade, não sabia se dava atenção para a menina loira sentada no banquinho de madeira da cantina, ou se permanecia ali com aquele bando de cuecas que preferiam aloprar a molecada só para mostrarem que eram donos do mundo.

Para ser parte integrante da galera do colégio durante as férias de verão, trocava a garota pela possível popularidade. Fez isso várias vezes. Diarimente, eu diria. O que ele não sabia, ainda, era que dar mais atenção a ela despertaria um maior interesse e popularidade do que qualquer chiclete grudado no cabelo da aluna feia da oitava B. Mas, um dia, ele usou o chiclete para o que realmente foi feito para ser usado. Pelo menos, tentou.

Com hálito de menta, apesar da embalagem ser azul insinuando a mastigação de um tal de sabor de Blue Sky (céu azul), sentou ao lado dela. Só sentou, pois como todo bom garoto que sabia aprender com filmes, tinha aprendido que qualquer mulher não aguentava ficar quieta quando alguém sentava ao seu lado sem explicação. Era só esperar alguns segundos para causar alguma reação e…

– Vai sentar sem dizer nada mesmo?

Desconcertado, permaneceu ali. Sem fala. Só olhando para aqueles olhos azuis que lhe levavam ao lugar mais alto do céu, no ponto em que o azul era mais brilhante por estar mais próximo ao Sol. E querendo demonstrar uma reação, soltou sem pensar:

– Nada não, Lucy. Só vim te oferecer um chiclete – disse.

– Se era só isso, obrigada. – aceitou o ‘céu azul’ e o colocou na boca, enquanto ele levantava sem jeito para voltar à sua rotina de ‘dono do mundo’.

Mais um dia havia passado. Apesar de ser jovem, sabia buscar no Ano Novo o sentimento de mudança que todo bom adulto procura. Pena que os sentimentos ainda era ingênuos de criança, ao ponto de não lhe darem força para seguir rumo ao que tinha vontade. A popularidade ainda falava mais alto do que enfrentar o preconceito de dizer que estava pronto para amá-la debaixo de um céu azul do tempo, na boca e naqueles olhos tão profundos.

Mas não importava, não é? Ainda era janeiro e tinha um ano inteiro pela frente para correr atrás da coragem que não sentia.

A diferença é que ele ainda tinha 12 anos. E você? Há quanto tempo permanece na ilusão de que popularidade é mais importante do que o coração? Talvez seja a hora de parar de querer ser o ‘dono do mundo’ e tentar buscar alguma verdade nos teus dias tão sem sal. A vida passa, caro leitor. E só resta a você decidir se vai ficar olhando o céu azul como uma simples paisagem ou se irá mastigá-lo como chiclete de adolescente para sentir o gosto da vida que lhe foi entregue em mãos.

Porquê cabe a nós saber a hora de mastigar as cores do Ano Novo e tomar coragem para tornar nossos pedidos uma realidade.