Chegou pela porta da frente, como todas as vezes, mas sem precisar se esconder. Agora, era verdade, não só mais entretenimento. Sentia aquela angústia na garganta, já que dessa vez não precisaria agir como um fugitivo que chegava ao seu destino para se jogar aos braços de sua amada, sem que pudesse ser visto. Era preciso encenar, manter a postura de bom moço, amigo, e correto, mas não mais se esconder. Pelo menos naquele dia.

Entrou com aquele frio na barriga que todos os que amam sentem, principalmente quando estão prestes a conhecer o pai da sua amada. Foi recepcionado com um boa noite “correto” como todos os casais fazem quando querem demonstrar que são… corretos. E eram, com a sutil diferença que não rimavam aos olhos comuns, mas para os dois, isso já era mero detalhe. O pai estava no quarto, se arrumando para sair e buscar a mãe, responsável por criar aquela garota de coração doce e sorriso tão amável.

Adiou a expectativa de conhecê-lo para quase uma hora depois, mas conheceu. Apressado, meio perdido, com sono talvez, poucas palavras, mas conheceu. Não importou como. O que mais importava para ele era o fato dela querer promover um “encontro”, mesmo que ensaiado, para que as pessoas que ela mais amava se conhecessem. Era um começo.

Disse “- Boa noite” e partiu, deixando o ambiente livre para que aqueles dois despisem às máscaras de bom comportamento e se entregassem à loucura que viviam guardando e acumulando em boas noites pelas redes sociais. Ele com frases, ela com músicas, os dois com textos. A partir daí, a ansiedade passou e o tempo parou. Os olhares se encontraram e tudo aquilo que já era costumeiro aconteceu. Se amaram.

Dessa vez, foi surpreendido por fortes abraços que lhe deixavam imóvel por alguns momentos, sem dar muita opção para ele, além de sentir. E sentia. Ela, o abordava com os olhos como se quisesse dizer a cada movimento as três palavrinhas que passaram a se permitir dizer há cerca de dois meses atrás. E dizia. O ‘eu te amo’ dos dois não era ‘bom dia’ de amigos em século XIX, era sentimento de verdade. Mais que isso. Era reconhecimento de que estavam dando uma chance de amar outra vez. Ou a primeira vez.

Ele, fotografava com os olhos cada expressão que ela fazia ao dizer que o amava, desejando ter o poder de registrar imagens do pensamento para revelar todas aquelas expressões em fotos, e deixar guardado em sua caixa de recordações em cima do armário. As dela estavam bem guardadas também, embaixo da cama. Puxou como se fosse um tesouro, já que a vontade de acumular momentos simples fazia parte daquela moça de abraço tão completo.

Mostrou a ele a nova aquisição e todas as lembranças, uma a uma, sempre seguida de uma breve explicação, como se pedisse para que ele dividisse e também cuidasse dos seus melhores momentos. E ela sabia que ele cuidaria, com o maior prazer. Observou e ouviu, já que contar sobre suas histórias era algo da qual ela mais gostava. Era fácil admirá-la quando via sorriso nos olhos ao falar dos seus momentos.

Estava mesmo acontecendo: os dias importantes estavam ali, sendo todos divididos como prova de inteira confiança e parceria. Entre eles, a embalagem do primeiro chocolate guardada como peça importante dentre as tantas outras lembranças. “Que momento mágico”, pensou. Manteve-se firme para não se emocionar e parecer amor de novela prestes a fazer a cena do beijo com a protagonista. Havia ficado mais claro: não importava por quanto tempo duraria, já havia alcançado o coração e virado história.

Não era a primeira vez, mas para ele, foi uma das mais especiais. O modo como ela agiu e demonstrou confiança, por meio de abraços e histórias compartilhadas, o fez perceber o quanto era verdadeiro. Sentiam uma vontade diária de dividir problemas e tentar resolvê-los, como se tudo o que pertencesse a ele fosse dela e vice-versa. Eram feitos um do outro.

Do suor ao chocolate de avelã, se entregaram mais uma vez. Ele, foi embora com a sensação de que estava se doando às coisas certas, por mais errado que parecesse aos outros. Chegando em casa, deitou com um sorriso no rosto e agiu feito criança. Deixou o banho de lado, não por preguiça ou por medo da água feito história de gibi da infância, mas sim para poder dormir com o cheiro do corpo dela que havia ficado na pele. “I love you more than ever girl I do“, dizia a canção. Estava realmente acontecendo: era amor.

Como duas pessoas que buscam sinceridade em coisas simples, alimentavam diariamente o coração com o propósito de amar para ser feliz. E eram!

* Conto baseado na letra  da música “For You Blue“, dos Beatles.