Olhava pela janela depois de sua saída e tentava relembrar do muito que viveu em pouco tempo. É leitor, observei aqueles dois de forma sincera, assim como o que foi dito e feito durante as doze horas em que permaneceram juntos. Intensa simplicidade. Eu, devorador de livros e compulsivo por palavras que me fizessem sentir, sabia de cor aquelas frases de que os momentos simples é o que valem a pena. Para aqueles dois, pareceu-me que o simples não bastara. Sabiam ser intensos, sem ultrapassarem aquela tênue linha de conflito entre carinho e compromisso. E com a ajuda dela, toda aquela noite aconteceu.

Ela ainda não entendia essa voracidade em se querer sem se ter. Mas, com o tempo, foi se deixando analisar. Em um mundo onde o ‘estar junto’ é mais importante pelo ‘status’ do que pelo ‘desejo’, ela percebia que  procuravam por alguém que retribuísse carinho.

Era engraçado imaginar como tudo aquilo aconteceu. Depois de cerca de sete meses, conta feita em um rápido momento-flashback de msn, decidiram ir mais além do que os simples e agéis encontros pela busca de prazer. Ampliaram o tempo. Inovaram o lugar, de novo. Dessa vez, sem precisar ter medo. Aproveitaram o convite e se entregaram à vontade contínua do encaixe que descobriram entre si.

Segundo o que falavam, e o que eu próprio passei a observar, a aventura tinha sempre que estar presente de alguma forma, tanto nas cenas quanto no cenário. Sorte que toda essa aventura não camuflara os outros sentimentos. Apesar da voracidade, ‘ser objeto’ não era necessário. Praticavam a sinceridade que haviam conquistado junto com a amizade verdadeira. Era essa a primeira regra.

E como férias tiradas com o efeito inverso de cansar ao invés de descansar para fugir da ebulição, implodiram-se naquele esconderijo tão só dela, e por algumas horas, tão dos dois. E cansaram. O sono do fim, mesmo com o “despertar” no início do dia, me fez interpretar o quão intenso deve ter sido aquilo que passariam a contar para quem os conheciam e, assim como ela, ainda não entendiam esse lance de ter em mãos sem confundir o coração.

Para mim, ficava cada vez mais claro o quanto as pessoas desejam procurar em alguém um carinho para retribuir. A diferença entre o que ela não entendia e o que ele nem tentava mais decifrar, era que se permitiram entregar-se ao carinho sem imaginar um roteiro e criar histórias. Deixaram o carinho vir antes e não se perderam como as outras pessoas com a palavra amor, só pelo fato de estarem ali, cometendo sincericídeos e trocando carícias.

Fizeram do novecentos e um o lugar ideal para o carinho em demasia e sem limite de tempo. Diferente de muitos casais que se perdiam com o amor que buscavam a qualquer custo, se encontraram pelo carinho e assim permaneciam.

Porquê explorar carinho em quem se gosta torna as coisas mais naturais e intensas do que se perder na palavra amor. E que bom que ainda não haviam se perdido…