Como uma doce criança que busca por carinho, ele cantou canções de ninar para ver se caía no sono. Na cabeça, pensamentos de angústia misturado com saudade, sem contar aquela seca sensação entre os lábios da qual não se consegue explicar. Porque os lábios secam quando a saudade vem? Talvez seja isso: saudade é um pouco como sede. A diferença é que a sede se mata com um copo de líquido qualquer. A saudade permanece presa na garganta, como se tivéssemos engolido algo que nos ficou entalado. O coração talvez. Aquele que esquece de se manter vivo nas horas em que mais precisamos de (im)pulsos para continuar. Pois é, até o próprio coração nos trai.

A noite cai e traz com ela a saudade,
junto com a secura e uma última batida até o coração parar: insisto!

Após uma semana em São Paulo, essas foram algumas das sensações que me sobraram. Secura, acompanhada de saudade. Lembrança é igual ao vento em dia seco. Quando menos se espera, a boa brisa que bate entre o rosto nos traz um objeto que nos cega os olhos. E foi isso o que tentei fazer. Cegar-me para as lembranças que insistiam em bater à porta. O coração intacto, pronto para voltar a pulsar diante das cenas que gritavam para serem repetidas como nos velhos tempos. O cenário estava lá, como de praxe. Só restavam aos atores entrarem em cena.

Não entraram. Não se viram. Pouco se falaram. Foi essa São Paulo a qual tive contato. Uma semana de companhia comigo mesmo. Andar sozinho na Paulista, em plena quinta-feira de uma manhã qualquer. Enquanto todo o conteúdo do meu passado se mantinha em movimento para tentar manter o presente, eu permaneci ali, entre ruas e carros cada vez mais intensos a cada visita que faço para tentar buscar o que lá deixei. E foi nesse pensar entre a fumaça e buzinas que me dei conta: talvez essa tenha sido uma das únicas vezes em que me senti sozinho naquela cidade, coisa comum entre os paulistanos mas que, para mim, era novidade. Eu, um turista em sua cidade natal. Quanta hipocrisia.

Uma semana, um passado inteiro, e nenhum contato – além da carinhosa e confusa vida em família. Essa não foi a São Paulo que conheci. Talvez esteja na hora de aceitar que os passos foram marcados entre as areias, e que restou a mim este lugar entre o mar e o Sol, pelo menos por enquanto. Eu estava disposto até então a buscar por um passado que lá deixei, mas de nada adianta tentar manter um tempo que já se rendeu à rotina.

São Paulo ainda reside em mim,
mas os “atores” se perderam do roteiro: ausência!

Como uma doce criança que busca por carinho, ele cantou canções de ninar para ver se caía no sono. Na cabeça, pensamentos de angústia misturado com saudade, sem contar aquela seca sensação entre os lábios da qual não se consegue explicar. Porque os lábios secam quando a saudade vem? Tomou um copo de água, lavou o rosto para tirar dele os vestígios do cansaço. A sede passou, a angústia fingiu, o sono chegou pedindo: adormeça, esse ainda é o melhor remédio.