Caminhar e ler virou rotina na vida do morador de rua

Caminhar e ler virou rotina na vida do morador de rua

O que se espera de um morador de rua? Muitos têm medo, outros os tratam com indiferença. Com certeza, poucas são as pessoas que acreditam que tais indivíduos pensem em adquirir cultura, ler livros e sonhar em ter profissões ocupadas por pessoas mais “elitizadas”.

Contudo, essa não é a realidade de Douglas Damião Gomes, 22 anos. Morador de rua desde os seus 10 anos, cursou apenas a quarta série do Ensino Fundamental. Atualmente, anda pelas praias de Santos lendo seus livros encontrados nos lixos, para passar o tempo, adquirir conhecimento e, principalmente, relaxar. O que ele gosta de ler: livros que retratem a realidade, em decorrência de sua própria situação social.

Qual é a razão para buscar na leitura o escape? Não fazer tudo aquilo que ele chama de “coisas erradas”, como o uso de drogas e álcool, comum entre a população de rua.

Apesar de ter na leitura um prazer, Douglas precisou largar a escola ainda jovem para ajudar sua avó, que tinha problemas de saúde. Diferente daquilo que se esperaria, ele vem de família classe média alta, sendo que sua mãe é psicóloga e sua irmã, veterinária. Também tem um irmão portador de Síndrome de Down.

Desde o momento que saiu de casa, não procurou ajuda da sua família. Ele relembra de seus parentes com tristeza, citando a razão do porquê deste sentimento: “Fui jogado no lixo pela minha mãe assim que nasci. Minha avó me pegou, levou para casa e cuidou de mim”. Este é o motivo de nem mesmo passar pela sua mente a ideia de procurar ajuda da mãe. Ele não conheceu seu pai biológico.

A partir de seus 17 anos, Douglas começou a andar por várias regiões do Brasil. É bom deixar claro que andar não é forma literal de dizer. Ele tem andado por lugares e estados diferentes. Com esta idade, já estava pelas ruas, mas próximo da avó. Quando ela morreu, ficou um tempo em São Paulo, mas o medo de morrer ou ser assaltado na noite paulistana fez dele o andarilho que se tornou. Para ele, a noite é a plena escuridão, a sombra.

Nas histórias que conta deste tempo, lembra de companheiros de rua que foram cruelmente assassinados enquanto dormiam, até com pedradas. O medo o levou a vários lugares. Passou por Poços de Caldas e Viçosa, em Minas Gerais, depois Rio de Janeiro e cruzou o litoral norte até chegar a Santos.

Nestas viagens, o Rio foi o local onde teve a melhor receptividade e ajuda. Já em Santos, apesar de achar o lugar muito tranqüilo, reconhece que não é um local dos mais receptivos para pessoas como ele, que não tem um teto para viver.

Aqui, sua alimentação é ruim. “Como arroz com feijão, só de quatro em quatro ou cinco em cinco dias”, diz. Sua comida favorita é simples, porém lhe faz muita falta. É o simples arroz, acompanhado do feijão com farinha. Muitos dispensam esse alimento, acham-no muito normal, básico, mas é o que Douglas mais queria degustar.

Douglas é jovem, mas já é pai. Sua filha não tem menos de um ano, e é fruto de um relacionamento com uma mulher que vivia nas ruas, onde se conheceram. Eles já não estão mais juntos, pois a mulher achou um outro homem que cuida dela e Douglas perdeu o contato com a filha. A menina foi tomada pela avó, assim que nasceu e ele nunca mais a viu ou ouviu sobre ela.

O morador das ruas goza de plena saúde, entretanto já passou por problemas para ser atendido quando precisou de atendimento hospitalar em Santos. Ele relembra: “Fui mal tratado. É difícil de ser atendido por causa do descaso”.

Douglas Damião já pensou em procurar abrigo, mas, por conhecer histórias de pessoas que passaram por albergues, desistiu da ideia. Outros moradores de rua lhe contaram que num lugar como este, onde procuram ajuda, existem assaltos e tentativas de assassinatos, fatos que tira-lhe a vontade de ir até lá.

Em Santos, ele reconhece ter sofrido com o comportamento das pessoas. Por sua vez, a Cidade é bem receptiva aos moradores de rua, que dormem em frente a estabelecimentos comerciais, tomam banho nos chuveirinhos da praia, e sempre durante o dia por causa do frio da noite.

A polícia não é um problema em seu cotidiano. Não há abuso, nem agressão, a menos que estivessem fazendo aquilo que o rapaz chama de errado, como o consumo de drogas.

Douglas afirma que já foi usuário de drogas e álcool, e encontrou nos livros o estímulo para esquecê-las. E como gosta de ler. Achar um texto, uma frase que seja é o suficiente, fazendo-lhe desligar do mundo real e entrar em um lugar onde não é inferior a ninguém, que não é tratado com indiferença. É como se fosse para uma terra onde não houvesse qualquer problema, um verdadeiro “mundo das fantasias”.

Ele sente a indiferença na sociedade, mas encontrou na leitura este “porto seguro”. Douglas tem Douglas Damião Gomescadastro em bibliotecas. Não anda como indigente, sempre levando consigo seu RG e carteira de trabalho. E sonha… Sonha em ter uma família, em ser arqueólogo. Tentou voltar a estudar, mas não consegue preencher qualquer ficha de cadastro, porque lhe pedem comprovante de residência e, logicamente, ele não possui.

Todavia, não deixa de viver e traçar planos. Em breve, irá andando literalmente para a Bahia, terra de seu pai, que também não conheceu. Viajará assim que passar o inverno, pois em sua sabedoria de nômade, viajar no frio é muito pior. Então segue sua vida, pelas praias, cidades, vilas e vilarejos, sem nunca deixar a sua paixão, o seu escape: os livros.

Sendo assim, tomamos liberdade ao dizer que, muitas vezes, o “mendigo” está nos olhos de quem vê!

Ps¹: créditos especiais ao meu futuro companheiro de TCC, Michael Gil.
Ps²: veja as outras duas matérias publicadas no site do jornal Boqueirão News.