Abriu a porta com um sorriso no rosto. Na mão esquerda o chocolate com avelã. Na direita, um presente, como ela costumava dizer, uma lembrança, como ele fazia questão de reforçar. Já havia se tornado costume o ‘paparicar’ de fim de tarde, fosse com um doce qualquer ou algum cd de música que combinasse com o jantar dos dois, de ouvidos tão seletivos. E como um boa noite de ‘lar-doce-lar’, se abraçaram para reestabelecer o contato que tinham um com o outro e que o dia-a-dia fazia questão de separar.

O carnaval pulsava lá fora. E em meio ao som de pandeiro, bateria e berros da ‘festa da carne’ que vinham da janela, os dois permaneciam ali nos preparativos para o jantar e  para mais uma DR do bem, para contar como havia sido o dia e o tempo que tinham ficado longe um do outro. Nunca tinham brigado, mesmo depois de tanto tempo. E por mais que algumas semanas viessem para desestruturar, o carinho e a companhia falavam mais alto do que qualquer ausência forçada que pudesse vir a aparecer sem avisar.

Comida, picanha e batatas fritas, na mesa. Ou no sofá como gostavam de ficar em frente a tv de plasma que haviam comprado para assistirem seus shows de rock prediletos. Ou aos filmes que mostravam aos dois que amor de filme existe quando é verdadeiro. Era bom assistir para comprovar que provavam do mesmo roteiro. (…) Pratos vazios, barriga cheia, conversa em dia, coração preenchido.

Ela, com o note no colo, via seus vídeos diários que a estimulavam a continuar com suas canções de amor correspondido. Ele, com o livro nas mãos, mantinha viva as palavras para continuar a escrever dos sentimentos que não conseguia explicar nos diálogos de ‘eu te amo’ que repetiam antes de dormir. Apesar das atividades distintas, as mãos continuavam próximas, como se não quisessem se distanciar nem por um segundo. Era bom saber que tinham um ao outro.

“É muito gratificante ver o trabalho de um ano inteiro na avenida, eu vivo por isso aqui…”, falava a moça dos seios fartos na programação repetitiva da tv, com lágrimas nos olhos. Engraçado como amor existe de diversas formas e para diferentes casos. Para os dois, viviam o ano inteiro um para o outro e para a música que já era tão frequente no dia-a-dia dela, e no presente em retribuição ao coração dele.

Apesar do barulho da época e dos confetes aos montes junto com samba-enredo e batuque na tv, ela adormeceu. Como era de costume, havia adormecido vendo vídeos pela internet. E claro, mandando o beijo diário ao filho único, que naquele instante estava em viagem no exterior estudando música na cidade da banda que sempre a motivou.

Ele a ajeitou na cama e fez o carinho que sempre fazia, enquanto observava o sono daquela linda menina. A TV continuava ligada, sempre com seus cantores preferidos que escolhiam para acompanhar a conversa enquanto estavam em casa. Era contra as regras desligar, mesmo que durante o sono. Afinal, faziam da música a aliança ideal para a união dos corações e amavam-se pelas canções que interpretavam entre si.

(…)

E num estalo, despertou no meio da noite. Assustado, olhou para o lado, para o outro, apalpou a cama de solteiro, fechou o livro aberto em cima do peito. “Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser“, disse Shakespeare no livro fechado, agora ao pé da cama. E como quem sonha com um futuro bom, projetava nos sonhos a realidade que todos que sabem amar de verdade querem alcançar. Era mais um sonho apenas, apesar de tão real. Ou quem sabe um déjà vu…