Os livros na estante já não tinham mais tanta importância. Não quando se tinha uma história real a ser vivida. Chegava ansioso todas as noites com vontade de continuar a escrevê-la, como um remédio que lhe fazia esquecer das dores do corpo imperfeito e da canseira diária.
Ela era porto seguro. Era história, sem conflito. Ou melhor, conflito havia. Mas entre eles era out, e não in. Sabia arrancar dele parte do coração com um simples texto antes de ir dormir. Se matavam de amor aos poucos, e se reconstruíam um da parte do outro. Ele era dela. Era assim que tinha que ser. Era assim que queriam que fosse.
Da brisa que tocava no rosto todos os dias de manhã ao levantar, tentava buscar no vento o cheiro dela que tanto o completava – assim como ela havia lhe pedido. Dizem por aí que só sentimos o cheiro de alguém quando há amor. E eles sentiam. Após buscar o cheiro, a chave. Ao abrir o portão para dar bom dia ao novo, recusava sempre a chave que a mãe lhe dava, e fazia questão de buscar bem lá no fundo da mala sua própria chave.
Para alguns, era só uma chave. Mas ele a sentia, só pelo toque, e já a puxava da mala com as mãos bem firmes, como se quisesse dizer ao chaveiro que ganhara: “Bom dia para nós”. E o apertava enquanto caminhava ao portão, como se aquele simples apertar no chaveiro entre os dedos quisesse demonstrar a força do amor que tinham entre si.
E assim, o chaveiro lhe desejava bom dia e já lhe fazia acordar com um sorriso contido por saber que a tinha por entre as mãos logo pela manhã. Certamente seria mais um dia agradável, só por saber que ela existia. Portão aberto, brisa no ar, livros na estante deixados para trás mais uma noite, tudo para poder dissertar sobre o seu dia com o amor que lhe esperava chegar em casa, depois de mais um dia exaustivo, e poder acalmá-lo em mais uma conversa.
Amor acalma. E era dela que ele tirava as forças necessárias para suprir desejos e amenizar a insatisfação que sentia em suas ações diárias. A vida havia se tornado mais simples e fácil de ser digerida depois que ela resolveu fazer moradia no coração daquele inquieto rapaz. Queria sempre mais conquistas. Almejava mudanças. Clamava por calmaria quando o corpo só permanecia em estado de atenção. Mas, com ela, a ebulição se transformava em beijo de boa noite para amenizar as frustrações.
E se desfazia dos livros com frequência sem sentir culpa. Agora tinha sua própria história para contar.
Você disse que eu nunca comentei aqui, prometi comentar. E aí, acabo o texto com a mesma sensação de sempre: não tem mais o que falar!
Não tem o que falar, Ivan! Você escreve textos e contos magníficos. Isso tudo porque você disse estar um tanto quanto sobrecarregado. Imagina só quando tiveres alma e a mente livres para sentir e simplesmente escrever? É seu dom! E eu acho muito que devias investir ;)
Sou sua fã, meu amigo! Sempre.
ai que bonito… inspirador ;) “Dizem por aí que só sentimos o cheiro de alguém quando há amor.”