Agora eram sessenta e uma teclas que moviam o coração. De uma hora para a outra, ela fez da música a melhor maneira de expressar seus sentimentos de amor correspondido. Não queria amar pela metade. Dizia, cantava, escrevia, compunha. Era feita de carne, osso e coração pulsante.
Não havia mais medo em se entregar. Como quem busca a fórmula certa para dosar amizade e amor, ela encontrou o homem que procurava para cantar suas canções em fase de teste, mas que já apontavam um futuro promissor. Sabia que tinha conquistado seu fã particular.
Para ele, era mais um dia de semana, com suas obrigações que o sufocavam feito ar quente em papel de pão. Há meses vivia dessa maneira. Contando ponteiros, pensando no quanto seria bom se a hora passasse com um mero apertar do coração. Praticava o pensamento, lugar que passou a habitar todos os dias para que pudesse encontrá-la e matar as saudades do amor que se dispunham um ao outro.
Se amavam com o coração, matavam a saudade com os olhos. E quando a rotina era amiga, encontravam-se para trocar presentes, suspiros e atenção. Se conheciam. Não se confundiam mais. Nem tinham mais medo. Queriam-se um para o outro. E quando a saudade apertava, ela olhava para o alto. “Quando sentir saudade, olhe para o céu e procure a estrela mais brilhante. Essa será o meu olhar em você, te fazendo recordar que há amor no coração”. Ela então olhou, e fez do ato poesia.
Se alimentavam de música, abraços, suspiros e estrelas. Chocolate, olho no olho, arrumar os cabelos, com o cuidado para não despenteá-los. O recorde: três encontros na semana. A solução passageira: três no ano. Com direito a banho quente, jantares e dormir de conchinha, até a hora em que o edredon os sufocassem. Separavam-se de calor, mas uma parte do corpo permanecia sempre em contato, fosse uma mão no peito, o pé no outro, o carinho dele nos olhos dela no meio da madrugada, sem que ela percebesse devido ao sonho que a consumia. Ele era compulsivo em observar a beleza dos sonos dos outros.
Presentes, mensagens incessantes durante as partidas para longas distâncias, para não deixar o coração esquecer. Até porque não conseguia. Durante quase toda semana, ele se divertia com os amigos. Hoje, era a vez dela. E assim respeitavam seus espaços, e expunham para os outros o sorriso que haviam conquistado após se encontrarem escondidos em meio à curiosidade.
A curiosidade combinada com a coragem de se entregar e com a proposta de fazer valer a pena. E mesmo depois de tanto tempo e histórias invadindo os dois caminhos, sabiam preservar o frio na barriga que sentiram no primeiro dia, minutos antes de se ver. Sabiam amar de verdade: não era se submeter, nem ao menos dominar. Apenas compartilhar. E nessa troca, entregavam os corações.
Talvez ele só esteja surpreso com o jeito que ela o ama o tempo todo.Talvez ela esteja surpresa do jeito que ele está com ela o tempo todo. Era bom acordar sabendo que havia alguém que te achava importante.