E mais uma vez o gosto do fim apareceria em sua boca. Aquele gosto amargo, hora apaixonante, em outras horas desesperador. As questões de ‘oquefazer, oqueseguir, noquepensar’ ainda não havia chegado, mas estavam cada vez mais próximas. Procurou pensar nos dias em que tinha vivido e resumiu os quatro anos, em dois: 25 e 26 de novembro.
No primeiro, 25, data de seu aniversário, dois patinhos na lagoa como todos faziam questão de brincar e reforçar a cada abraço. Talvez como uma forma de mostrar a ele que a idade aumentara, mas a criança ainda era perceptível em suas ações, devido às ações que recebia dos outros. A idade chega para todos, mas ainda não era hora de se desesperar, se é que é necessário se desesperar quando a idade chega. Naquele dia, as conquistas gritavam mais alto do que qualquer desentendimento com o calendário que o envelhecia.
Era o dia do saber, descobrir. Pela primeira vez, não sabia por onde comemorar. Mas os outros sabiam por si. Em 22 anos, sabia quem eram as pessoas queridas, mas não sabia a proporção do quanto era querido. As vezes temos essa mania de selecionar pessoas, sem nos darmos conta de que as quem não selecionamos também nos selecionaram para dar atenção. Descobriu o carinho em cada um, a cada abraço. Como era de seu perfil, negativava o coração para não alimentá-lo da ilusão da efusividade. Mas, não teve jeito. “Você é muito querido e especial”, lhe diziam.
Da comemoração no novo emprego, com bolo de limão, camisa xadrez e lindas palavras de quem te mostrou o caminho até ali. Do canto de ‘parabéns a você’ assim que entrou em sala de aula em dia de ‘botar para fora’ a tensão dos últimos quatro anos. Dos avisos de ‘seu presente está a caminho’ e dos abraços apertados com um ‘valeu pela amizade’, vindo até de quem não considerava. E claro, das mensagens em escrito que trazia fortes frases, avisando a ele que havia descoberto Amor, amigos e torcedores.
Todos sorriam, como forma de desejar para ele o melhor. E como sempre fazia, sorria de volta, já que sorrir era vício diário, fosse na dor ou na alegria dos belos dias. E no dia seguinte, 26 de novembro, sorriu da forma maior que pode haver: com os olhos. Dia da aprovação de um projeto de Guerra e Paz dentro de si. Projeto esse, que no começo desse ano o afastou das coisas que lhe mantinham em pé: deste blog, dos livros, dos filmes, do bom humor diário aos amigos, do amor pelas palavras, do ‘contar histórias’.
Havia esquecido até de contar dois dos momentos mais emocionantes que já havia passado: Rock In Rio, show de Maroon 5 e System Of A Down, duas das bandas que lhe resgataram a adolescência, em cantoria aos berros e coração apertado na Cidade Maravilhosa. Mas, hoje, já lhe era permitido voltar. O bater de palmas dos amigos e a frase ‘vocês foram aprovados’ ainda soava forte ao pé do ouvido. Era um jornalista.
Engraçado, pois já se sentia um profissional há um ano atrás, quando foi assessor de uma das melhores assessorias em areia de praia do mundo, apesar de alguns olhares tortos e da inveja que residia. Venceu e cresceu ali. Mas, 26, foi dia de comprovar esse crescimento. TCC aprovado, faculdade no fim, vitórias realizadas em companhia, aniversário comemorado por todos, e a descoberta do quanto valia a pena se entregar às pessoas nas menores coisas, pois o carinho vinha em dobro.
Não havia se arrependido de nada, pensava. Era feito de excessos. Precisava se entregar às pessoas, mesmo que essa entrega lhe recebesse com armas e punhos fechados. Não gostava de carregar fantasias, mas fantasiava diariamente para apagar os maus olhares. Gostava de sentir o bem, assim como de fazê-lo. E era assim que se sentia no momento: bem! Com as conquistas, e com o coração. Chorou sorrindo, como forma de um ‘Muito Obrigado’ e pediu: que venham os próximos dias. Afinal, estava sempre disposto a ‘se tornar especial’ para quem quer que fosse.
Não era o fim.

Aquele abraço que nos demos ao você sair do Cineclube foi o melhor abraço desses 4 anos. Aquelas lágrimas foram a demonstração do quanto vc é mesmo especial pra mim. Seu exagerado. Eu te amo!