Um dia Sol, no outro chuva, e amanhã sabe lá o que será. Assim como um vaso que se quebra ao cair em ambiente plano, com o tempo a gente aprende a juntar os cacos, mesmo que não haja cola suficiente para unir todos os lados. Uma parte da peça sempre fica de fora, enquanto outras, mesmo mal coladas, ajudam a sustentar a base. Depois, com o engolir dos dias, percebe-se que a peça “de fora” não tinha tanto valor quanto aquelas que ainda permanecem juntas, mesmo depois de tanta cola.
As pessoas são desnecessárias? Talvez, assim como os sentimentos: a inveja, o ódio e a vontade de querer dormir quando a vida pede rima. Afinal, é preciso de uma pessoa para que eles existam. Logo, ser desnecessário é ser aquele que dá vida a tais sentimentos, correto?
Confesso que andava meio desnecessário há tempos. Da pouca vontade de se alimentar no café da manhã, até a auto-defesa de expor sorriso amargo para pessoas azedas. Era o jeito, afinal minha avó sempre me ensinou que amargura afasta acidez. O que eu não sabia era que amargura demais afastaria não só o deles, mas também o meu sorriso, por mais azedo que estivesse.
Mas, assim como se aprende a juntar os cacos bons e deixar de lado os desnecessários, há sempre uma dose de açúcar para adoçar os maus momentos. Eles aparecem, acredite. Basta estarmos dispostos a receber. E foi debaixo de todo esse sentimento levemente adocicado que ela apareceu.
Junto, veio os ingredientes do qual já faziam parte do meu menu, mas estavam apenas desgastados. A poesia de Camelo e sua mania de cantar pra solidão. A insensatez de gostar de Fresno e “uma banda emo de gente que acha que sabe tocar rock” (mas pra gente eles sabiam). Horas conversando sobre a vida mesmo sem chegar a algum sentido. O ‘seu lindo’ sempre presente no antecipar do ‘durma bem’.
E assim, os dias iam se adoçando. As experiências mudando, os projetos aumentando, os trabalhos ampliando, a faculdade desgastando, o dia-a-dia atropelando, os costumes acostumando, as pessoas atuando… e os dias se adoçando. Da companhia que ganhava, conquistei coragem para acreditar nos meus deveres. Do silêncio que sutilmente oferecia, ganhei vontade de correr atrás dos meus direitos.
Assim, a gente vai aprendendo a afastar esse medo idiota em conhecer pessoas. Entre tantos sorrisos amarelos, há sempre um que brilha em demasia na multidão. E do buraco que ficou com os cacos que não colaram mais, passa-se a usar peças novas para reconstruir a parte que faltava e dar vida ao objeto no canto esquerdo do peito, já tão obsoleto. Se iria se quebrar de novo, disso eu não sabia. Mas repetia os ensinamentos de Caio para manter a cola firme: “Que seja doce, que seja doce, que seja doce…”
Logo eu, já tão acostumado com dias tão salgados, fui aprendendo que açúcar fazia bem ao coração.
Obs.: obrigado pela amizade, sempre tão presente (sua linda!).